Conheça Victor Hespanha, o brasileiro que vai para o espaço com a Blue Origin

Programado para esta sexta-feira (20), às 10h30 da manhã, o quinto voo tripulado da Blue Origin promete causar uma emoção especial para o nosso país. Entre os anunciados como próximos tripulantes da espaçonave New Shepard está Victor Correa Hespanha, que entrará para a história como o segundo brasileiro a viajar para o espaço.

Lançamento de um foguete New Sheapard, da Blue Origin
Próximo voo espacial tripulado da Blue Origin terá o brasileiro Victor Correa Hespanha a bordo da espaçonave New Shepard. Imagem: Blue Origin

Desde a última segunda-feira (9), quando seu nome foi revelado no comunicado oficial da missão NS-21 (o 21º voo na contagem geral da empresa), a vida do mineiro de Belo Horizonte, de 28 anos, virou de pernas para o ar. Todos os principais veículos da imprensa escrita, televisiva e da Internet queriam conversar com ele e saber detalhes sobre essa história inusitada.

Afinal de contas, não é todo mundo que tem a sorte de viajar para o espaço, ainda mais com absolutamente todas as despesas pagas, ou seja, sem precisar desembolsar uma verdadeira fortuna por isso – embora a Blue Origin não mencione valores em sua página de reserva de bilhetes, sabe-se, por exemplo, que um assento para o primeiro voo foi leiloado e arrematado por US$28 milhões (algo em torno de R$141,6 milhões).

Investimento em NFTs se converte em passagem para o espaço

Victor conseguiu sua vaga na próxima missão da Blue Origin por meio de um sorteio feito pela Crypto Space Agency (CSA), que se autointitula “a agência espacial para a nação cripto”, depois de adquirir três NFTs (sigla em inglês para token não fungível).

“Eu comprei algumas NFTs da CSA quando fiquei sabendo que eles haviam comprado uma cadeira no próximo voo da Blue Origin. Já estava juntando um dinheiro para investir nesse mercado de cripto, NFT e tudo mais, e estava esperando pela oportunidade certa”, relatou o engenheiro de produção civil.

Victor com a camisa da Crypto Space Agency (CSA), agência de criptoativos que promoveu o sorteio do assento na próxima viagem da Blue Origin, do qual ele se sagrou vencedor. Imagem: Reprodução Instagram

Segundo ele, ao tomar conhecimento de que a agência havia comprado um assento em uma missão espacial turística, viu nisso uma chance de investimento, vislumbrando a valorização de seus ativos.

“O tema de criptomoedas e NFT ainda é relativamente novo, poucas pessoas conhecem e dominam de fato, e ainda alguns assuntos de NFT eram muito subjetivos. E eu entendi que esse projeto da CSA especificamente trazia algo muito concreto, não abstrato, limitado ao campo digital. Ele traria um vencedor para acessar o espaço”, explicou Victor. “Então, eu vi que seria um projeto extremamente promissor. E aí eu investi, comprei três NFTs e fui abençoado de ser o sorteado”.

Ele estava acompanhando o sorteio em tempo real, e mal pôde acreditar quando viu no Twitter da CSA a divulgação do resultado. “Foi um momento surreal. Pensei: ‘Será que isso é verdade? Sou eu mesmo?’, e fiquei com aquela sensação de algo extremamente inédito. Eu nunca ganhei na loteria, mas imagino que deve ser uma sensação semelhante. É algo inacreditável, incrível. Estou muito feliz mesmo por isso”.

Victor conta que investiu em torno de R$12 mil na compra de três dos 5.555 NFTs da coleção Gen-1 disponibilizados pela agência. Os investidores se tornam membros premium da comunidade da CSA e têm vantagens, como acesso prioritário a eventos, produtos e sorteios. “No valor de criptomoeda, cada uma saiu a 0,25 Ether (ETH), da rede Ethereum. Convertendo isso para real, na época, eu paguei aproximadamente entre R$3,8 mil e R$4 mil em cada uma das três”.

Desejo de conhecer Marcos Pontes

Como grande parte das crianças brasileiras, em especial os meninos, Victor queria ser jogador de futebol quando era mais novo. Esse sonho não se tornou real, mas ele mal podia imaginar que outra de suas aspirações de infância poderia ser concretizada, de alguma forma: ser astronauta.

“Acho que toda criança tem o sonho de ser astronauta, de ir para o espaço, vestir aquela roupa, ficar em gravidade zero, etc. Na escola, eu comecei a aprender um pouco de física, depois sobre astronomia também, então eu sempre me interessei”, conta Victor, que atribui isso à curiosidade gerada pelo desconhecido. “Um assunto cercado de mistérios, muito desconhecido, e eu acho que o desconhecido gera curiosidade. Eu sempre tive muita curiosidade por esses temas e agora tenho o privilégio, o prazer e a bênção de dar um passo extremamente importante”.

Victor tem o desejo de conhecer o primeiro brasileiro a ir ao espaço, o ex-astronauta e ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes. Imagem: Arquivo pessoal – Reprodução Instagram

Até agora, o único brasileiro a viajar para além da Terra foi o ex-astronauta e ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, que Victor revelou ter o desejo de conhecer pessoalmente. “Estou ansioso para conhecê-lo. Gostaria de perguntar o que ele levou. Acho que esse encontro vai ser fantástico, algo realmente épico, e eu estou doido para que isso aconteça”.

Se realmente isso for acontecer, ficará para depois que o jovem voltar dessa que promete ser a viagem mais especial de sua vida. Isso porque Victor e sua esposa Marcella Diniz Hespanha embarcaram para os EUA na noite deste domingo (15).

Victor Hespanha e a esposa Marcella Diniz Hespanha embarcaram para os EUA na noite deste domingo (15). Imagem: Reprodução Instagram

E o que será que o brasileiro levou na mala para voar com ele para o espaço? Na entrevista concedida na sexta-feira (13) ao Olhar Digital, ele disse que ainda não sabia o que levaria, mas que, com certeza, seria algo relacionado às suas origens. “Penso em levar fotos da minha família, que é a base de tudo isso. De resto, eu não sei, estou pensando ainda em algumas coisas curiosas que possam remeter às minhas raízes. Eu sou mineiro, nascido e criado em Belo Horizonte, e também o que possa representar o Brasil”.

Como são os preparativos para viajar para o espaço com a Blue Origin

Conforme relatado no nosso guia completo sobre turismo espacial, existem pré-requisitos para viajar a passeio para o espaço, que variam de empresa para empresa. Para voar pela Blue Origin, por exemplo, a idade mínima é 18 anos. O interessado deve ter mais de 1,50 m e menos de 1,92 m. Também há limites mínimo e máximo quanto ao peso: de 50 kg a 101 kg.

Além dessas exigências, há uma série de outras, merecendo destaque as quatro a seguir:

  • Capacidade de escalar a torre de lançamento da nave New Shepard (o equivalente a sete lances de escadas) em 90 segundos e de andar em superfícies ligeiramente desniveladas;
  • Prender-se e soltar-se do cinto de segurança no tempo máximo de 15 segundos;
  • Ser capaz de suportar uma força de até três vezes a aceleração da gravidade (3 Gs), por cerca de dois minutos (sendo essa uma das sensações na decolagem – durante o voo, essa força pode chegar a quase 6 vezes durante alguns segundos);
  • Escutar e compreender instruções em inglês de membros da tripulação ou de comunicadores de rádio, em um ambiente em que o volume do som pode chegar a 100 dB.

Quanto aos treinamentos, eles duram em torno de 14 horas, e podem acontecer durante um a dois dias. Neles, os potenciais tripulantes fazem ensaios de missões, recebem instruções de segurança, realizam atividades análogas, além de procedimentos operacionais em geral. Nessas preparações para o voo, eles também recebem orientações sobre a microgravidade.

“O programa é feito para que se exija o mínimo da tripulação”, explicou Victor. “Diferentemente dos astronautas, que têm que passar por um denso treinamento e têm que saber operar funções nas espaçonaves, nesse programa a tripulação só aproveita mesmo a viagem, com o mínimo de contato possível com alguma questão mais técnica”.

Victor Hespanha será considerado um astronauta?

De acordo com as diretrizes determinadas pela Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA), para ser considerado um astronauta, o viajante espacial precisa voar mais de 80 km acima da superfície da Terra para se qualificar. Segundo esse critério, os tripulantes da Blue Origin são aptos, já que os voos da empresa ultrapassam essa marca, passando inclusive a barreira de 100 km de altitude, chamada Linha de Kármán, convencionada como a “fronteira final”, ou seja, o início do espaço sideral.

No entanto, o viajante deve ter passado por um treinamento certificado pelo departamento e “demonstrar durante o voo ações que são importantes para a segurança pública ou contribuem para a segurança espacial humana”. Além disso, a pessoa deve ser designada para a tripulação a realizar certas tarefas durante o voo, não sendo apenas um passageiro comum.

Como a New Shepard é um veículo totalmente autônomo, não fica ninguém responsável por pilotar a espaçonave, nem ninguém realmente realizando quaisquer tarefas que sejam essenciais para a “segurança espacial” da tripulação.

Sendo assim, Victor Hespanha não será considerado astronauta – e ele não só tem consciência disso, como concorda com os critérios estabelecidos e enaltece aqueles que realmente detêm esse título.

“Eu tenho um respeito enorme pela comunidade científica e pelos astronautas. Eles estudam muito por isso, se dedicam, e eu valorizo demais esse esforço”, declarou o brasileiro. “Eu me considero um viajante espacial, que vai ter o privilégio de ver a Terra de cima, a escuridão do Universo e as estrelas um pouquinho mais de perto, a curvatura do planeta, então eu me considero um privilegiado de poder ver isso, mas não me considero um astronauta de forma nenhuma”.

Emoção se sobressai ao medo

Questionado sobre estar com medo, Victor disse que está confiante. “Eu vejo como andar de avião. Todas as vezes que ando de avião, eu sei que estou em uma altitude extremamente alta e que qualquer problema fora do padrão pode ser fatal, naquela velocidade e naquela altura. É natural ter medo. Mas, eu procuro entender dessa forma: é uma oportunidade muito grande, e o programa da Blue Origin é muito seguro, sem histórico de acidente, então estou mais aproveitando do que sentindo medo”.

Com a proximidade do momento do lançamento, entretanto, ele sabe que a sensação poderá ser diferente. “Eu sei que quando chegar na hora de entrar na cápsula, com a contagem regressiva, vai dar um frio na barriga enorme, mas a emoção é muito grande e com certeza se sobressai ao medo”.

E Jeff Bezos? Será que o fundador, CEO e um dos primeiros passageiros da Blue Origin estará presente na base de lançamento da empresa, no oeste do Texas, para acompanhar de perto a viagem de Victor e seus companheiros de voo Evan Dick, Katya Echazarreta, Hamish Harding e Jaison Robinson?

“Naturalmente, a gente vai ficar nas instalações por alguns dias antes, então conhecer o lugar faz parte do pacote. Tenho a expectativa de estar lá, de ver o foguete de perto, sei que vai ser muito legal. Quanto ao Jeff Bezos, eu não sei se vamos ter algum contato com ele, mas é óbvio que vai ser muito legal se ele estiver lá”, disse Victor, reforçando que, independentemente disso, esse sonho já está sendo muito maior do que ele imaginava.

 

 

 

 

Fonte: https://olhardigital.com.br/2022/05/16/ciencia-e-espaco/conheca-victor-hespanha-o-brasileiro-que-vai-para-o-espaco-com-a-blue-origin/

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