Vigário Geral abre centro de formação de atletas de eSports

Transformar jogos eletrônicos em ocupação profissional é o objetivo de uma iniciativa que está sendo implantada na comunidade de Vigário Geral, na Zona Norte do Rio. O AfroGames tem o objetivo de ser o primeiro centro formador de atletas de esportes eletrônicos dentro de uma favela no mundo.

A ideia surgiu após um encontro entre o empresário Ricardo Chantilly e o fundador do AfroReggae, Jose Junior. O empresário queria apostar no ramo dos games e Junior queria tornar o ambiente dos jogos eletrônicos mais democrático.

“Estava estudando a área de games e o José Junior do AfroReggae me chamou para reativar a área musical do centro em Vigário Geral. Na hora, eu falei ‘não vamos para música, vamos para games’. A gente sentou, apresentei vídeos sobre a indústria. Depois de 10 minutos, ele virou e falou ‘não vi um negro jogando em alto nível e campeonatos’. Eu falei ‘é verdade’. Daí surgiu a ideia do primeiro centro de formação de jogadores profissionais de eSports dentro de uma favela”, contou Ricardo Chantilly em entrevista ao G1.

Alunos recebem instruções dos professores do AfroGames — Foto: Jorge Soares/G1

(Alunos recebem instruções dos professores do AfroGames)

“Depois de oferecer cursos, o nosso segundo passo é pinçar os Pelés e Neymares dos games e montar o nosso time. Vai ser o primeiro time formado dentro de uma favela no mundo. O terceiro passo é que isso vire um celeiro de jogadores para o Brasil inteiro”, completou o empresário.

A ONG vai disponibilizar ao todo 100 vagas disponibilizadas para os jovens a partir de 12 anos, divididas em três cursos: League of Legends (LoL), Programação de jogos e Produção Musical para Games. Os alunos contam ainda com curso de inglês para complementar a formação.

‘Disney dos games’ e bronca da mãe

Os idealizadores do projeto apelidaram o espaço como “Disney dos Games”, com acesso gratuito aos jovens das comunidades. Os alunos com quem o G1 conversou elogiaram a qualidade da estrutura que é oferecida.

Edvaldo Junior, de 19 anos, é morador de Vigário Geral e disse que a diferença do computador que ele estuda para o da casa dele é “esmagadora”.

“Lá em casa a internet era de 1 mega e demorava muito. O que aqui leva menos de um minuto para carregar o jogo, lá demorava três ou quatro horas. A diferença é esmagadora. O computador que eu tinha era meio quebrado, atrás a gente tirou uma parte para ver se rodava mais forte e chegou um tempo que nem ele suportou e veio a ‘falecer’”, disse.

Já Guilherme Marcos, morador de Parada de Lucas, contou que sua mãe brigava com ele quando ficava horas na lan house para jogar. Quando percebeu que na diversão do filho poderia ter um futuro, a mãe do jovem resolveu apoiar a decisão.

“Minha mãe brigava comigo quando eu ia para a lan house jogar. Mas de acordo com o tempo, ela foi vendo que eu gostava muito desses negócios e falou ‘po, Guilherme, procura um curso nessas coisas que você gosta’. Na hora que o AfroReggae abriu essa oportunidade, eu agarrei com força. Não teve como deixar essa passar”, afirmou Guilherme.

Mariana Menezes em estúdio de som do AfroReggae — Foto: Jorge Soares/G1

(Mariana Menezes em estúdio de som do AfroReggae)

Apesar de também ser uma fã dos jogos eletrônicos, Mariana Menezes quer seguir a carreira de programadora musical. Ela disse ao G1 que o objetivo no AfroGames é absorver o máximo de conhecimento que puder.

“O meu objetivo aqui é aprender o máximo possível de várias coisas. Principalmente sobre música ou jogos. São coisas que eu sempre gostei muito desde criança. Eu aprendi a gostar de música por causa de um jogo e hoje pretendo seguir a carreira de programadora”

Diversidade e cidadania

Além de formar os alunos, o projeto viu a oportunidade de reforçar conceitos importantes para a sociedade através dos jogos. A coordenadora de projetos do AfroReggae, Mariana Uchôa, afirmou que os personagens do LoL acabam sendo exemplos para ensinar pontos sobre “diversidade”.

“Quando a gente estava estudando o universo dos games, a gente foi se dando conta do quanto o LoL reafirma o conceito de diversidade. Cada personagem tem um perfil, uma cultura diferente, tem personagem gay, mulheres, meninas. A gente foi vendo, através do jogo, como trabalhar conceitos tão importantes para a gente”, disse Mariana.

A preparação profissional dos alunos e a descoberta de talentos é o objetivo principal. Mas, para Ricardo Chantilly, a formação de cidadãos traz satisfação ao projeto.

“Esse não é o futuro, esse é o presente para darmos uma sacudida na educação do Brasil. Esse acesso digital que estamos dando aos garotos, vai mudar a cabeça deles. Se a gente conseguir um jogador, a gente vai ter conseguido pelo menos 100 cidadãos”, disse o empresário.

Funcionários do AfroGames com dois alunos do projeto — Foto: Jorge Soares/G1

(Funcionários do AfroGames com dois alunos do projeto)

Fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/05/09/afrogames-vigario-geral-inaugura-centro-de-formacao-de-atletas-de-esports.ghtml

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