O homem que está ressuscitando idiomas extintos

Como muitas pessoas na Austrália, o professor Ghil’ad Zuckermann colabora regularmente com um fundo para salvar o Diabo da Tasmânia.

Esse animal está em risco de extinção, juntamente com grande parte da incomparável vida selvagem que faz da Austrália um lugar tão único e enigmático. No entanto, as pressões da vida moderna não atingem apenas a fauna local.

Embora a Austrália seja famosa em todo o mundo por sua biodiversidade, para um professor de linguística como Zuckermann, o país gera outro fascínio: suas línguas. Antes da chegada dos colonizadores europeus, a Austrália costumava ser uma das áreas com maior diversidade linguística do mundo, com cerca de 250 idiomas diferentes.

Devido, em parte, ao longo isolamento geográfico, muitos deles desenvolveram estruturas gramaticais e conceitos completamente diferentes quando comparados com outros ao redor do mundo.

Uma dessas línguas é chamada Guugu Yimithirr. Falada no norte do Estado de Queensland, deu ao mundo a palavra “canguru”.

Mas, de acordo com o Censo australiano de 2016, o Guugu Yimithirr tem apenas 775 falantes nativos vivos atualmente – e esse número está caindo. Das 250 línguas faladas antes da chegada dos colonos, todas com exceção de 13 são consideradas “com alto risco de extinção” nos dias de hoje – e pouca gente presta atenção a isso.

Importância da diversidade linguística

“Acredito que a maioria das pessoas se preocupa mais com os animais em risco de extinção do que com idiomas em risco de extinção”, explica Zuckerman.

“A razão é que os animais são tangíveis. Você pode tocar um coala. Coalas são fofos. Idiomas, no entanto, não são tangíveis. Eles são abstratos. As pessoas entendem a importância da biodiversidade muito mais do que a importância da diversidade linguística.”

No entanto, para Zuckermann, preservar essa diversidade linguística é extremamente importante. Para comunidades indígenas na Austrália e no mundo que ainda estão lutando contra o legado da colonização, ser capaz de falar sua língua ancestral é uma questão de empoderamento e recuperação de identidade. E isso pode gerar consequências significativas para a saúde mental.

Protesto pelos direitos dos aborígines em Melbourne, na Austrália

(Protesto pelos direitos dos aborígines em Melbourne, na Austrália. O reconhecimento e a valorização das línguas indígenas é um dos muitos problemas que afetam essas comunidades)

Ghil’ad Zuckermann visitou a Austrália pela primeira vez em 2004. Ele ficou tão apaixonado pelo país que decidiu fazer algo para ajudá-lo.

Como professor de linguística em Israel, filho de um sobrevivente do Holocausto, e especialista em análise do renascimento da língua hebraica, Zuckermann identificou rapidamente uma área em que seu trabalho poderia ter um impacto positivo: o renascimento e o fortalecimento das línguas e culturas aborígenes.

Assim, estabeleceu pela primeira vez o campo transdisciplinar de pesquisa chamada Revivalistics, que se concentra em apoiar a sobrevivência, renascimento e revigoramento de línguas ameaçadas e extintas em todo o mundo. São idiomas que vão do hebraico ao galês, passando pelo córnico e irlandês – sem mencionar os falados na América do Norte, como Wampanoag e Myaamia, entre muitos outros.

Exemplo na terra natal

Israelense, Zuckermann cresceu como um falante nativo do hebraico moderno, sem dúvida o exemplo mais bem-sucedido de renascimento de uma língua até hoje no mundo. O hebraico ficou extinto por quase 2 mil anos, até que os revivalistas da língua começaram a usá-lo novamente no fim do século 19.

Para isso, adaptaram a antiga língua da Torá para que ela pudesse se adequar à vida moderna. Por fim, se tornaria a língua materna de todos os judeus do então criado Estado de Israel, fundado em 1948.

A experiência e a vivência pessoal de Zuckermann com o hebraico moderno influenciaram enormemente seu trabalho atual na Austrália, precisamente por causa de sua visão crítica. Ele argumenta que a língua hoje falada por milhões de pessoas em Israel e conhecida como hebraico não é, e nem poderia ser, a mesma língua da Bíblia.

“Os judeus não conseguiram reviver o idioma de Isaías. É simplesmente impossível reviver uma língua como ela era antes”, diz.

Harry Potter em hebraico

(O hebraico moderno é muito diferente da língua antiga – mas agora desenvolveu uma vida própria)

Em vez disso, Zuckermann explica que o hebraico moderno, ao qual se refere como “israelense”, é uma língua híbrida, que aproveitou as influências que os migrantes judeus trouxeram para Israel de suas línguas nativas, como iídiche, polonês, russo e árabe.

Ao longo de gerações, essas diversas variantes se misturaram e moldaram a língua à sua forma moderna. E de acordo com Zuckermann, isso não deve ser visto como um problema. Essas mudanças são naturais e necessárias no processo de ressuscitar uma língua.

“Presto mais atenção ao falante do que ao idioma em si. Um falante de iídiche não consegue se livrar da lógica do idioma, mesmo que odeie o iídiche e queira falar hebraico. Mas no momento em que a pessoa entende a importância do falante nativo em detrimento do purismo linguístico e da autenticidade da língua, essa pessoa pode ser um bom revivalista”, explica.

Belezas adormecidas

Grande parte do trabalho de Zuckermann na Austrália se concentrou em Barngarla, uma língua morta – Zuckermann prefere o termo “bela adormecida” – que foi falado nas áreas rurais do sul do país entre as cidades de Port Augusta, Port Lincoln e Whyalla.

O último falante nativo, Moonie Davis, morreu em 1960. No entanto, quando Zuckerman entrou em contato com a comunidade Barngarla e propôs ajudar a ressuscitar sua língua e cultura, ficou impressionado com a resposta. Ele ouviu: “Estávamos esperando por você há 50 anos”.

O ponto de partida de Zuckermann foi um dicionário escrito em 1844 por um missionário luterano chamado Robert Schürmann. Em 2011, Zuckermann começou a realizar viagens regulares ao território de Barngarla para oferecer oficinas de renascimento linguístico.

Com ajuda e orientação de Zuckermann, a comunidade recorreu ao conhecimento armazenado no dicionário de 1844 de Schürmann. Além disso, muitos também compartilharam o que puderam lembrar das palavras que ouviram de seus pais e avós.

Na ocasião, debates foram realizados sobre como criar palavras apropriadas que poderiam ser aplicadas à vida moderna. Barngarla deveria seguir o precedente do inglês e se referir ao computador usando a metáfora da “computação”? Ou deveriam, em vez disso, fazer alusão ao mandarim, cuja palavra 电脑 (diànnǎo) significa literalmente “cérebro elétrico”?

A ressuscitação de línguas aborígenes pode coincidir com uma maior apreciação da arte e cultura destas comunidades

(A ressuscitação de línguas aborígenes pode coincidir com uma maior apreciação da arte e cultura destas comunidades)

O resultado é a moderna Barngarla, uma língua que renasceu sendo a mais próxima possível do Barngarla falado antes que seu último falante nativo morresse. No entanto, inevitavelmente, como no caso do hebraico moderno, nunca será totalmente a mesma.

Muito tempo se passou e houve uma influência considerável da língua colonial, neste caso o inglês, para o Barngarla de hoje ser uma cópia do original. Trata-se, assim, de uma língua híbrida, mas que a comunidade Barngarla pode se sentir orgulhosa de falar mais uma vez. Para Zuckermann, não há nada de errado nisso. De fato, muito pelo contrário: “O hibridismo resulta em nova diversidade linguística”.

Linguicídio

“Linguicídio” – o assassinato de uma língua – está entre as 10 formas de genocídio que são reconhecidas pelas Nações Unidas. A língua Barngarla não morreu em 1960 apenas de causas naturais. Como muitas línguas aborígenes, do início a meados do século 20, foi ativamente destruída e submetida a políticas cruéis e imperialistas do governo australiano na época, que retirava as crianças de suas mães e as enviava para internatos a milhares de quilômetros de distância.

Lá, elas aprendiam inglês e rapidamente esqueciam sua língua materna. Se por acaso voltavam para suas terras ancestrais, elas se viam incapazes de se comunicar com suas próprias famílias, já que não compartilhavam mais um idioma comum.

Lavinia Richards é uma das crianças das “gerações roubadas”. Ela se lembra do trauma de ser separada de sua mãe pelas autoridades australianas e forçada a falar uma língua estrangeira – o inglês.

Quando a comunidade de Barngarla lançou um CD de histórias e canções de pessoas de Barngarla afetadas pela “geração roubada” em junho de 2018, ela incluiu um poema que escreveu sobre uma flor que lembrava a mãe, uma lembrança de uma vida que lhe foi negada porque nasceu falando a língua errada.

Para Zuckermann, há três razões pelas quais as pessoas devem apoiar o renascimento de uma língua. A primeira é a simples questão ética de corrigir os erros da supremacia linguística colonial. Zuckermann afirma que o próprio fato de que o governo australiano da época tentar ativamente destruir a diversidade linguística da Austrália, impulsionada talvez pelas noções racistas de políticos como Anthony Forster, que em 1843 declarou “os nativos seriam civilizados mais rápido se sua língua fosse extinta”, já basta para convencê-lo.

No entanto, a segunda razão de Zuckermann é utilitária. O renascimento da linguagem vai além da simples comunicação. Ele argumenta que se trata de “cultura, autonomia cultural, soberania intelectual, espiritualidade, bem-estar e alma”.

“Quando você perde sua língua, você perde sua alma. Quando você revive seu idioma, você não apenas revive seus sons, suas palavras, seus morfemas e seus fonemas. Você revive tudo”.

Ao longo dos seus muitos anos de trabalho no renascimento de línguas, Zuckermann tornou-se cada vez mais convencido de uma tendência clara. Ele acredita ter observado uma melhora na saúde física e mental da população entre as comunidades aborígines que reivindicaram sua língua ancestral.

Ele enxerga uma queda acentuada na incidência de suicídio, alcoolismo, vício e diabetes – problemas que infelizmente são comuns entre os aborígenes em toda a Austrália.

Estas são apenas observações anedóticas, mas em 2017, ele começou uma pesquisa de cinco anos para ver se encontra provas concretas para sustentar sua teoria.

Caso esteja certo, diz acreditar que isso deve dar ao governo australiano motivo suficiente para apoiar programas de revitalização de idiomas em todo o país por meio de impostos destinados ao financiamento da saúde pública.

Placa em língua indígena canadense

(Um estudo do Canadá descobriu que as comunidades que preservaram sua língua indígena tendem a ter taxas de suicídio menores)

Um estudo preliminar de 2007 da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Universidade da Colúmbia Britânica e da Universidade de Victoria, no Canadá, parece embasar as afirmações de Zuckermann.

Ao analisar dados do Censo canadense, os pesquisadores descobriram que as taxas de suicídio de jovens “caíram efetivamente para zero nas poucas comunidades em que pelo menos metade dos membros relatou algum nível conversacional de sua língua ‘nativa'”.

“Acredito realmente que bilhões de dólares na Austrália foram desperdiçados em programas estúpidos aprovados por médicos. Posso provar qualitativa e quantitativamente que a recuperação da língua nativa melhora a saúde do paciente”, diz Zuckermann.

“Se você mata a língua de uma comunidade aborígene, você causa depressão. Se você causa depressão, você faz com que as pessoas percam a vontade de cuidar de seu bem-estar.”

A terceira e última razão citada por Zuckermann para apoiar o renascimento de um idioma é estética. Em outras palavras, a coexistência de tantas línguas, distintas e únicas, é bonito de se ver. O multilinguismo da Austrália é uma espécie de reflexo humano da biodiversidade pela qual o país é tão bem conhecido. No entanto, Zuckermann está ciente de que, de todos os seus argumentos, este é o que pode encontrar pior recepção entre o público em geral.

Para Candace Kaleimamoowahinekapu Galla, uma havaiana nativa e professora-associada da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, falar sua língua ancestral e promover seu uso entre seus colegas havaianos, é “simples, mas fundamental”.

Trata-se de uma questão de orgulho. “Mas não de uma forma egoísta”, esclarece ela, rapidamente. “É um orgulho humilde. É acessar documentos, jornais ou histórias dos anos 1800 e compreendê-los em um nível diferente do que ler sua tradução em inglês.”

Havaí

(O conhecimento da língua indígena pode aumentar a apreciação de outras formas de expressão cultural, como música e dança)

Galla descreve a língua havaiana como a base de tudo que distingue a cultura do Havaí. Ela diz acreditar que mesmo a famosa dança Hula, que alcançou status de um fenômeno global, é impossível de ser executada sem compreender o havaiano, a letra e o movimento por trás da letra. Sem um entendimento dessas coisas, você está “apenas aprendendo coreografia”, de acordo com Galla. “Você não pode dançar Hula sem ser havaiano. Você pode dançar, mas não é Hula”.

Pensando no futuro, Zuckermann tem grandes planos. Após a decisão de fundar o Revivalistics e trabalhar com a comunidade de Barngarla, ele diz que seu próximo passo é espalhar sua mensagem ao máximo.

Desde que dirigiu seu primeiro curso online de código aberto sobre o renascimento de idiomas em 2014, ele já teve mais de 11 mil participantes de 188 nações, incluindo Afeganistão, Síria e países onde o genocídio e o linguicídio são comuns.

“Quero alcançar pessoas que não são acadêmicas. Pessoas que são ativistas de idiomas, mas que não vão à universidade e não têm dinheiro para fazer as coisas. Pessoas que gostariam de reviver seu próprio idioma”, conclui.

 

 

 

 

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-47992648