Projeto de balé em uma das maiores favelas de SP tenta pela 1ª vez vaga em competição nacional

Bolhas, unhas caídas e quebradas, problemas no tornozelo pela quantidade de horas sustentando o corpo na sapatilha de ponta. Parece tortura, mas são os pés do ofício. Mais especificamente dos treinos. Desde janeiro a turma de 14 meninas e dois meninos do Ballet Paraisópolis encara uma rotina diária de ensaios para tentar arrematar vagas no Festival de Joinville, uma das grandes competições de dança do país, que ocorre em julho.

Fundadora do projeto, criado em 2012 em Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, na Zona Sul (com cerca de 100 mil habitantes, perdendo apenas para Heliópolis, na Zona Leste), a bailarina Mônica Tarragó acreditava, inicialmente, que a inscrição em tal competição seria possível após mais três anos de aprendizado. Antecipou por demanda dos talentos e por ter a certeza de que errou na previsão.

“É uma tentativa. O balé é muito seletivo. É para quem tem talento, para quem tem coragem. Elas me pediram: está na hora de a gente sair. Eu imaginava que seria em 2020, porque eu calculo mais ou menos oito anos para a turma ter um bom resultado. Mas em cinco nós tivemos”, analisa.

Para se inscrever, é preciso gravar vídeos das coreografias e enviar o material ao Festival. O projeto concorre, já na pré-seleção, com escolas privadas do Brasil afora. Se passar, será a primeira vez que participará de uma competição de grande porte e com concorrentes de bolso. “A dança é elite. A escola [particular] é cara, os professores são caros, as roupas, a sapatilha é cara”, ressalta Mônica.

Na data limite, eles conseguiram um teatro para fazer as filmagens. Foram inscritos nove vídeos. Sendo dois de conjunto (grupos com 12 bailarinos cada), um duo (coreografia entre uma bailarina e um bailarino) e variações (bailarina e bailarino dançam sozinhos no palco). Cinco vídeos são da categoria júnior, três da infantil e um sênior.

À espera

Em maio o Festival divulga os selecionados. Enquanto aguardam o primeiro resultado, as crianças calibram os sonhos com vídeos de dança no YouTube. Nesta quinta (30), porém, serão plateia real do Balé da Cidade.

Cerca de 50 alunos do projeto vão assistir aos espetáculo “Risco”, da companhia de dança do Theatro Muncipal, que estreou na última sexta-feira (23).

“O sonho delas é prestar uma audição e entrar em uma companhia. Tenho três crianças que o desejo é entrar para o Balé da Cidade e não querem outra coisa a não ser isso”, conta Mônica.

“Sonho de agora”

Uma das apostas do projeto, Yasmin de Souza da Silva, de 13 anos, tenta arrematar uma vaga não apenas com o grupo, mas dançando sozinha. A competição, segundo a menina, é seu grande “sonho de agora”. Ela diz tremer na base – ou na ponta – ao lembrar das proporções do Festival. “Minha cabeça só pensa no palco enorme que eu vou ter que enfrentar. É meu sonho de agora”, resume.

Todos os dias após retornar da escola ela faz a própria maquiagem, estica os fios em um coque perfeito, e caminha até a sede do projeto, pertinho de sua casa. Duas horas de aula e duas de treino, podendo ser um pouco mais. Não cansa? “Às vezes, quando meu cabelo está de mal de mim e não consigo prender, meu braço cansa. Eu desisto depois tento de novo”, explica, limitando a estafa aos preparativos.

Dos três aos nove anos Yasmin foi criada pela avó, ao lado da irmã caçula. A matriarca, que já tinha se separado do pai das garotas e criava as meninas sozinha, deixou o Maranhão, de ônibus, rumo à capital do país em busca de melhores condições de emprego e moradia. Não gostou e migrou para São Paulo. Entrou por São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Tempos depois, por indicação de parentes, conseguiu um cômodo em Paraisópolis.

“Lá eu ganhava muito pouco e não dava para sustentar as duas. Minha mãe foi meu braço direito”, conta Márcia. Retornou para buscar as filhas seis anos depois da partida. Sobre o tempo longe da prole: “Não gosto nem de falar. Eu tinha que ter trazido, mesmo passando pelo sufoco que passei”, avalia. Hoje, com um emprego fixo em um supermercado e dupla jornada como diarista, ela conquistou a casa própria em Paraisópolis. A última parcela foi quitada em fevereiro.

No Maranhão, estimulada à distancia pela mãe, e com o apoio da avó, Yasmin iniciou no balé. Vestiu o primeiro tutu (saia de bailarina), azul e branco, aos dois anos, quando era aluna “baby” em uma escolinha em sua cidade natal. “Guardo até hoje”, diz a garota.

A dança é a narrativa da vida da menina. Permeia recordações, sustenta planos e entretém. Longe do projeto, Yasmin pesquisa sobre a vida de bailarinas profissionais, principalmente da companhia inglesa The Royal Ballet, para a qual deseja ingressar. “Tento entender o que elas (as bailarinas profissionais) falam. Fico tentando saber como é a vida delas.” E qual o significado do balé? “É inexplicável. Não consigo falar o que é. É uma emoção.”

Chapéu na mão

Sem patrocínio desde o começo do ano, Mônica Tarragó espera angariar fundos não apenas para manter o Ballet Paraisópolis em pé – mas dançando – e, sobretudo, na competição do sul do país. A viagem demandará verba de transporte, alimentação e alojamento dos possíveis participantes.

“Eu acho que esse ano devemos ir. Vou pedir para todo mundo, vou passar o chapéu. Preciso do transporte, da alimentação para os 15 dias das crianças lá”, explica a fundadora.

Financiado por leis de incentivo à cultura, o projeto aguarda liberação de aporte de patrocinadores via Lei Rouanet. Enquanto a verba não chega, as aulas da manhã foram cortadas para equacionar os custos bancados por Mônica.

Atualmente são 200 alunos atendidos pelo programa e uma lista de espera com mais de mil nomes. Fazer parte, entretanto, requer mais do que desejo e comprovante de residência na comunidade – requisitos mínimos.

“Isso aqui foi feito com muitas regras. Não é creche. Tive uma reunião muito séria com os pais. A regra é: a criança chega com 20 minutos de antecedência, acabou a aula, ela vai embora”, explica.

É necessário enfrentar uma seletiva e, uma vez aprovado, atestar saúde, escolaridade – só é atendido pelo projeto quem frequenta escola. Também são permitidas seis faltas por ano. Vacilou, está fora.

O objetivo de Mônica, além de encontrar e desenvolver talentos de forma gratuita em áreas onde o acesso ao lazer é limitado ou quase inexistente, é conseguir, no longo prazo, replicar o projeto em outras comunidades não apenas da capital paulista – se possível, no Quênia, na África – e transformar o Ballet Paraisópolis em uma companhia de dança.

“Eu adoraria em 2020, que daria os oito anos das crianças, de formatar um pequeno grupo, uma pequena companhia, para que desse para sustentar pelo menos dez bailarinos aqui conosco, que pudessem representar o Ballet Paraisópolis. Que pudesse sobreviver e ganhar dinheiro disso. É um sonho”, comenta.

Ainda este ano, ela também quer abrir vagas para atender cadeirantes e crianças com paralisia cerebral. Esse novo projeto está sendo inscrito e precisa de aprovação para, depois, captar recursos.

Fonte: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/projeto-de-bale-em-uma-das-maiores-favelas-de-sp-tenta-pela-1-vez-vaga-em-competicao-nacional.ghtml